Os situacionistas e as novas formas de ação na política ou na arte

Publié le par la Rédaction


Com muita alegria publico aqui a tradução (rigorosa, bem anotada, com base numa profunda consciência histórica) deste documento pouco comentado nos escritos sobre Debord e a Internacional Situacionista. Em sua publicação pelas edições Potlatch é antecedido de uma apresentação histórica e teórica de Erick Corrêa, que também o traduziu, e por Preliminares para uma definição da unidade do programa revolucionário, de autoria de Debord e Pierre Canjuers, então militante de Socialismo ou Barbárie, texto traduzido por mim e pelo camarada Romain Dunand, publicado e distribuído, também no método potlatch, pela experiência de Os enraivecidos (2001). Convido os leitores desse blog a reproduzirem-no. A nota seguinte (e que, na publicação Potlatch, antecede a tradução do texto de Debord) é também do camarada Erick Corrêa (também autor da montagem publicada acima). Boa leitura!


Em 1963, no contexto de uma manifestação na Dinamarca denunciando a construção de abrigos anti-nucleares (crítica do urbanismo e da guerra-fria), a IS organizou uma “instalação” e publicou um catálogo chamado Destruction of the RSG 6. O texto de Guy Debord traduzido abaixo (do original em língua francesa), Os Situacionistas e as novas formas de ação na política ou na arte, foi aí reproduzido em dinamarquês, inglês e francês. Esse texto avança em relação ao programa esboçado em Preliminares para uma definição da unidade do programa revolucionário (1960) na medida em que representa uma nova estratégia acordada pela organização com o objetivo de romper “por todos os meios, mesmo artísticos”, com os sucessores das vanguardas (políticas e estéticas) herdeiras — de um modo ou de outro — do antigo movimento social revolucionário. Tal avanço reside justamente na transição prática que ele reflete e prefigura, transição que é, ao mesmo tempo, o ponto de partida da operação que levará ao movimento de maio de 1968, em cujo bojo a questão de uma comunicação direta, de uma diálogo prático com as tendências revolucionárias de sua época recolhe a partir de então uma importância progressiva e essencial. Esse texto apresenta uma síntese seminal das questões discutidas em Comunicação, arte e revolução em Guy Debord, texto que introduz as presentes traduções (Nota do tradutor).

Os situacionistas e as novas formas de ação na política ou na arte

O movimento situacionista aparece simultaneamente como uma vanguarda artística, uma pesquisa experimental sobre a via de uma construção livre da vida cotidiana, enfim, uma contribuição à edificação teórica e prática de uma nova contestação revolucionária. Daqui em diante, toda criação fundamental na cultura quanto toda transformação qualitativa da sociedade encontram-se reservadas aos progressos de tal esforço unitário.

Uma mesma sociedade da alienação, do controle totalitário, do consumo espetacular passivo reina por toda parte, apesar de algumas variações em seus disfarces ideológicos e jurídicos. Não se pode compreender a coerência dessa sociedade sem uma crítica total, esclarecida pelo projeto inverso de uma criatividade liberada, o projeto de dominação de todos os homens sobre sua própria história, em todos os níveis.

Portar em nosso tempo tal projeto e esta crítica inseparáveis (cada um dos termos remetendo ao outro) significa, de imediato, despertar todo o radicalismo do qual foram portadores o movimento operário, a poesia e a arte modernas e o pensamento da época de ultrapassagem da filosofia, de Hegel a Nietzsche. Para tanto, primeiro é preciso reconhecer em toda sua extensão, sem ter acolhido nenhuma ilusão consoladora, a derrota do conjunto do projeto revolucionário no primeiro terço desse século e sua reposição oficial, em toda região do mundo como em todo domínio, por bugigangas mentirosas que recobrem e organizam a velha ordem.

Retomar o radicalismo desse modo implica naturalmente também um aprofundamento considerável de todas as antigas tentativas libertadoras. A experiência de sua incompletude no isolamento, ou de seu retorno em mistificação global conduz a melhor compreender a coerência do mundo a transformar — e, a partir da coerência reencontrada, pode-se salvar muito das pesquisas parciais continuadas no passado recente, que penetram deste modo em sua verdade. A apreensão dessa coerência reversível do mundo, tal como é e tal como é possível, desvenda o caráter falacioso das reformas (demi-mesures) e o fato de que há essencialmente uma reforma cada vez que o modelo de funcionamento da sociedade dominante — com suas categorias de hierarquização e especialização e, consequentemente, seus hábitos ou seus gostos — reconstitui-se no interior das forças da negação.

Igualmente, o desenvolvimento material do mundo acelerou-se. Ele acumula cada vez mais poderes virtuais; e os especialistas da direção da sociedade, pelo fato mesmo de seu papel de conservadores da passividade, são forçados a ignorar seu emprego. Esse desenvolvimento acumula ao mesmo tempo uma insatisfação generalizada e mortais perigos objetivos, que os dirigentes especializados são incapazes de controlar duravelmente.

Sendo a ultrapassagem da arte posta pelos situacionistas em tal perspectiva, se compreenderá que quando falamos de uma visão unificada da arte e da política, isso não quer dizer absolutamente que recomendamos uma qualquer subordinação da arte à política. Para nós e para todos que começam a olhar esta época de uma maneira desmistificada, já não havia mais arte moderna, exatamente do mesmo modo que não havia mais política revolucionária constituída em lugar algum, desde o fim dos anos trinta. Seu retorno agora pode ser apenas sua ultrapassagem, isto quer dizer justamente a realização do que foi sua exigência a mais fundamental.

A nova contestação, da qual falam os situacionistas, já se levanta por todos os lugares. Nos grandes espaços da não-comunicação e do isolamento organizados pela ordem atual, sinais surgem através de escândalos de um gênero novo, de um país a outro, de um continente a outro; seu intercâmbio começou.

Trata-se para a vanguarda, em todo lugar em que ela se encontra, de religar entre si suas experiências e suas pessoas; de unificar, assim como tais grupos, a base coerente de seu projeto. Devemos fazer conhecer, explicar e desenvolver esses primeiros gestos da próxima época revolucionária. Eles são reconhecíveis por concentrarem neles novas formas de luta e um novo conteúdo, manifesto ou latente, da crítica do mundo existente. Assim a sociedade dominante, que se orgulha tanto de sua modernização permanente, vai encontrar a quem falar, pois ela produziu enfim uma negação modernizada.

Assim como fomos severos para recusar que se misturem ao movimento situacionista intelectuais ambiciosos ou artistas incapazes de nos compreender verdadeiramente, para rejeitar e denunciar diversas falsificações da qual o pretenso “situacionismo” nashista [
O epifenômeno nashista recolhe a nosso ver uma polêmica bastante insignificante, além de não ser este o espaço adequado para nos aprofundarmos nela. O que importa é a origem mesma da demissão de Jørgen Nash (demissão que se desdobra posteriormente no nashismo, obviamente exterior à IS) que, na V Conferência de Göteborg (1961) exprimiu em nome da seção escandinava alguns desacordos com relação as perspectivas ali apresentadas por Raoul Vaneigem e aprovadas pela organização. A respeito, consultar o relatório da V Conferência, publicado em 1962 na Internationale situationniste nº7 (disponível em: http://i-situationniste.blogspot.com/2007/04/la-cinquieme-conference-de-lis-goteborg.html) e também o texto L’operation contre-situationniste dans divers pays, publicado em 1963 no número seguinte da revista (disponível em: http://i-situationniste.blogspot.com/2007/04/operation-contre-situationniste-dans.html. Nota do tradutor).] é o mais recente exemplo, do mesmo modo estamos decididos a reconhecer como situacionistas, a apoiar, a nunca desaprovar os autores dos novos gestos radicais, mesmo se entre eles vários ainda não são plenamente conscientes, mas somente sob a via da coerência do programa revolucionário de hoje.

Limitemo-nos a alguns exemplos de gestos que aprovamos totalmente. Em 16 de janeiro, estudantes revolucionários de Caracas atacaram à mão armada a exposição de arte francesa e levaram cinco quadros pelos quais eles propuseram em seguida a restituição em troca de prisioneiros políticos. Os quadros foram retomados pelas forças de ordem, não sem que Winston Bermudes, Luis Monselve e Gladys Troconis se defendessem abrindo fogo sobre elas: outros camaradas jogaram alguns dias depois sobre o caminhão da polícia que transportava os quadros recuperados duas bombas que infelizmente não conseguiram destruí-lo. Aí está manifestamente uma maneira exemplar de tratar a arte do passado, de repô-la em jogo na vida e sobre o que ela tem de realmente importante. É provável que desde a morte de Gauguin (“Quis estabelecer o direito de tudo ousar”) e de Van Gogh, jamais suas obras, recuperadas por seus inimigos, tenham recebido do mundo cultural uma homenagem que se ajuste a seu espírito como este ato dos venezuelanos. Durante a insurreição de Dresden em 1849, Bakunin propôs, sem ser seguido, retirar os quadros do museu e colocá-los sobre uma barricada na entrada da cidade, para ver se as tropas assaltantes não seriam por eles constrangidas a continuar seus tiros. Vê-se ao mesmo tempo como este affaire de Caracas renova um dos mais altos momentos do levante revolucionário no último século, e como no conjunto ele vai mais longe.

Não menos motivada nos parece a ação dos camaradas dinamarqueses que, nas últimas semanas, recorreram várias vezes à bomba incendiária contra as agências que organizam as viagens turísticas na Espanha assim como a emissões radiofônicas clandestinas para alertar a opinião pública contra o armamento termonuclear. No contexto do confortável e entediante capitalismo “socializado” dos países escandinavos, é muito encorajador que surjam homens que, por sua violência, fazem descobrir alguns aspectos da outra violência que funda essa ordem “humanizada”, seu monopólio da informação, por exemplo, ou a alienação organizada nos lazeres ou o turismo. Com o revés horrível que se deve aceitar em excesso desde que se aceita o tédio confortável: não apenas esta paz não é a vida, mas ela repousa sobre a ameaça de morte atômica; não apenas o turismo organizado é apenas um espetáculo miserável que recobre os países reais atravessados, mas ainda a realidade do país que se transforma assim em espetáculo neutro é a polícia de Franco.

Enfim, a ação dos camaradas ingleses que divulgaram em abril a localização e os planos do “Abrigo governamental da Sexta Região” tem o imenso mérito de revelar o grau já atingido pelo poder estatal em sua organização do terreno, o agenciamento bem avançado de um funcionamento totalitário da autoridade que não está somente ligado à perspectiva da guerra. É bem antes a ameaça por todos os cantos alimentada de uma guerra termonuclear que a partir do presente, a Leste e a Oeste, serve para manter as massas na obediência e para organizar os abrigos do poder. Para reforçar as defesas psicológicas e materiais do poder das classes dirigentes. O restante do urbanismo moderno na superfície obedece às mesmas preocupações. Já escrevíamos em abril de 1962, no número 7 da revista situacionista de língua francesa Internationale situationniste, a propósito dos abrigos individuais construídos nos Estados Unidos durante o ano precedente: “Como em todas as intimidações, a proteção é aqui apenas um pretexto. O verdadeiro uso dos abrigos é a medida — e por aí mesmo o reforço — da docilidade das pessoas, e a manipulação dessa docilidade em um sentido favorável à sociedade dominante. Os abrigos como criação de um novo gênero consumível na sociedade da abundância, provam mais do que nenhum dos produtos anteriores que se pode fazer os homens trabalharem para preencher necessidades altamente artificiais; e que seguramente permanecem necessidades sem jamais terem sido desejos. O novo habitat que toma forma com os “grandes conjuntos” não é realmente separado da arquitetura dos abrigos. Ele disso representa somente um grau inferior; ainda que lhe seja aparentemente estreito. A organização concentracionária da superfície é o estado normal de uma sociedade em formação cujo resumo subterrâneo representa o excesso patológico. Esta doença revela melhor o esquema desta saúde.”

Os ingleses acabam de aportar uma contribuição decisiva ao estudo desta doença e, portanto, também ao estudo da sociedade “normal”. Este estudo é ele mesmo inseparável de uma luta que não tem receio de ir além dos velhos tabus nacionais da “traição”, quebrando o segredo que é vital para o bom andamento do poder na sociedade moderna, para tantos propósitos, por de trás da tela espessa de sua inflação “informacional”.

A sabotagem foi estendida ulteriormente, apesar dos esforços policiais e de numerosas prisões, invadindo surpreendentemente estados-maiores secretos isolados no campo (onde certos responsáveis foram fotografados à força) ou bloqueando sistematicamente quarenta linhas telefônicas dos centros de segurança britânicos com chamadas ininterruptas dos números ultra-secretos igualmente descobertos.

É este primeiro ataque contra o ordenamento dominante do espaço social que quisemos cumprimentar, e estender, organizando na Dinamarca a manifestação Destruction of the RSG 6. Fazendo-o nós visamos não apenas a extensão internacionalista desta luta, mas igualmente sua extensão para outro front, para o aspecto artístico da mesma luta global.

A criação cultural que se pode chamar situacionista começa com os projetos de urbanismo unitário ou de construção de situações na vida, e suas realizações não são, portanto, separáveis da história do movimento de realização do conjunto das possibilidades revolucionárias contidas na sociedade presente. No entanto, na ação imediata que deve ser empreendida no seio do que queremos destruir, uma arte crítica pode ser feita a partir de agora com os meios de expressão cultural existentes, do cinema aos quadros. É o que os situacionistas resumiram pela teoria do détournement (desvio). Crítica em seu conteúdo, esta arte deve ser também crítica dela mesma em sua forma. É uma comunicação que, conhecendo as limitações da esfera especializada da comunicação estabelecida, “vai agora conter sua própria crítica”.

A propósito da “RSG 6”, arranjamos primeiro uma atmosfera de abrigo anti-atômico, como primeira passagem que faz pensar, após a qual se encontra uma zona de negação conseqüente desse gênero de necessidade. A arte utilizada aqui de uma maneira crítica é a pintura.

O papel revolucionário da arte moderna, que culminou com o dadaísmo, foi a destruição de todas as convenções na arte, na linguagem ou nas condutas. Como evidentemente o que é destruído na arte ou na filosofia não está ainda varrido concretamente dos jornais ou das igrejas, e como a crítica das armas não seguia então certos avanços da arma da crítica, o dadaísmo mesmo tornou-se uma moda cultural classificada, e sua forma retornou recentemente em divertimento reacionário pelos neo-dadaístas que fazem carreira retomando o estilo inventado antes de 1920, explorando cada detalhe desmedidamente aumentado, e fazendo servir tal “estilo” à aceitação e à decoração do mundo atual.

No entanto, a verdade negativa que conteve a arte moderna foi sempre uma negação justificada da sociedade que a entornava. Em 1937 em Paris, quando o embaixador nazi Otto Abetz perguntava a Picasso diante de seu quadro Guernica: “Foi o senhor que fez este?”, Picasso respondia muito justamente: “Não, foi o senhor”.

A negação, e também o humor negro, que tanto se espalhou na poesia e na arte modernas após a experiência do primeiro conflito mundial, merecem reaparecer seguramente a propósito do espetáculo do terceiro conflito mundial, espetáculo no qual vivemos. — Então que os neo-dadaístas falam de carregar de positividade (estética) a recusa plástica de Marcel Duchamp outrora, estamos seguros de que tudo que o mundo nos dá atualmente como positivo pode apenas recarregar sem fim a negatividade das formas de expressão atualmente permitidas, e por esse desvio constituir a única arte representativa desse tempo. Os situacionistas sabem que a positividade real virá de outro lugar, e que a partir do presente essa negatividade aí colabora.

Para além de toda preocupação pictural; e esperamos mesmo para além de tudo o que pode lembrar uma complacência a uma forma, apodrecida desde mais ou menos muito tempo, da beleza plástica, nós traçamos aqui alguns sinais perfeitamente claros.

As “diretivas” expostas sobre quadros vazios ou sobre um quadro abstrato desviado devem ser consideradas como slogans que se poderá ver escritos sobre os muros. Os títulos em forma de proclamação política de certos quadros têm seguramente o mesmo sentido derrisório e de retorno do pompiérisme [
Na cultura francesa, o pompiérisme designa uma arte “pretenciosa”, “academicista”, “pomposa”, como nas pinturas militares. Daí a origem do termo que advém de pompier: bombeiro (Nota do tradutor).] em voga, que busca estabelecer-se sobre uma pintura de “sinais puros” incomunicáveis.

As “cartografias termonucleares” ultrapassam no conjunto todas as trabalhosas pesquisas da “nova figuração” em pintura, pois elas unem os procedimentos mais liberados da action-painting a uma representação que pode pretender a perfeição realista de várias regiões do mundo em diferentes momentos da próxima guerra mundial.

Com a série de “vitórias” trata-se — aí misturando ainda a maior desenvoltura ultramoderna ao realismo minucioso de um Horace Vernet — de renovar com a pintura de batalhas; mas inversamente a Georges Mathieu e o retorno ideológico retrógrado sob o qual ele fundou seus insignificantes fragmentos publicitários. A inversão a que aqui chegamos corrige a história do passado de modo melhor, mais revolucionário e mais feliz como ela jamais foi. As “vitórias” continuam o desvio otimista-absoluto pelo qual Lautréamont já, pagando por audácia, se inscreveu em falso contra todas as aparências da tragédia e de sua lógica: “Não aceito o mal. O homem é perfeito. A alma não cai. O progresso existe… Até o presente, descreve-se a catástrofe, para inspirar o terror, a piedade. Descreverei a felicidade para inspirar os contrários… Enquanto meus amigos não morrerem, não falarei da morte.”

Guy Debord, junho de 1963
Traduzido por Erick Corrêa
Poiesis trabalho & cultura, 13 décembre 2009.

Publié dans Debordiana

Commenter cet article