Carta aos estudantes escrita por trabalhadores atenienses

Publié le par la Rédaction


A insurreição grega, que já chega ao seu 14º dia, começa a produzir suas expressões teóricas. Como em toda insurreição dos últimos anos (Argentina, Oajaca, periferias européias…), a crítica prática revolucionária se opõe às hierarquias, à ideologia, à mercadoria, à representação e ao Estado. E produz diálogo e comunicação prática horizontal. Vejam este belíssimo texto!
PS: Carol foi libertada hoje de manhã. Vitória das liberdade!

L’insurrection grecque, qui en est à son quatorzième jour, commence à produire ses expressions théoriques. Comme dans chaque insurrection récente (Argentine, Oaxaca, les banlieues en Europe…), la critique révolutionnaire en actes s’affronte aux hiérarchies, à l’idéologie, à la marchandise, à la représentation et à l’État. Et produit le dialogue et la communication pratique horizontale. Jugez-en à ce beau texte !
PS : Caroline a été libérée ce matin. Victoire pour la liberté !

Nossa diferença de idade e o distanciamento geral nos dificultam discutir com vocês nas ruas; esta é a razão por que nós mandamos esta carta.

A maioria de nós ainda não está careca, nem nos pintou uma barriguinha. Somos parte do movimento de 1990-91. Devem ter ouvido falar dele. Naquele momento, quando havíamos ocupado nossas escolas durante 30-35 dias, os fascistas mataram um professor porque foi mais além da sua função natural (o de ser nosso guardião) e cruzou a linha que levava ao lado oposto: veio conosco, para nossa luta.

Então, até o mais brando de nós foi às ruas nos distúrbios. Sem dúvida, nós nem sequer pensamos em fazer o que tão facilmente fazem vocês hoje: atacar delegacias (ainda que cantávamos aquilo de “queimar delegacias…”).

Assim francamente, vocês foram muito mais além que nós, como ocorre sempre na história. As condições são diferentes, é claro. Nos anos 90 nos compraram com a desculpa do êxito pessoal e alguns de nós nos entregamos. Agora as pessoas não acreditam neste conto de fadas. Vossos irmãos maiores nos demonstraram durante o movimento estudantil de 2006-07. Vocês agora lhes cuspam seu conto de fadas na cara.

Agora começam as boas e difíceis questões.

Para começar, lhe dizemos que o que temos aprendido de vossas lutas e de nossas derrotas (porque ainda que o mundo não seja nosso, sempre seremos perdedores) e podem empregar o que temos aprendido como queiram:
Não fiquem sós. Chamem-nos; chamem a tanta gente como seja possível. Não sabemos como podeis fazê-lo, encontrarão a forma. Já ocuparam vossas escolas e nos dizem que a razão mais importante é que não gostam delas. Bem. Já que ocuparam, invertam o rol de prioridades. Troquem vossas ocupações com outras pessoas. Permitam que vossas escolas sejam o primeiro lugar para nossas novas relações. Sua arma mais potente é nossa divisão. Tal e como vocês não temeram atacar as delegacias porque estão unidos, não temam chamar-nos para mudar nossas vidas, todos juntos.
Não escutem nenhuma organização política (nem anarquista nem outra qualquer). Façam o que necessitem. Confiem no povo, não em esquemas e idéias abstratas. Confiem em vossas relações diretas com as pessoas. Confiem em vossos amigos: façam da vossa luta a de quanto mais gente for possível, vossa gente. Não lhes dêem ouvidos quando te disseres que vossas lutas não têm conteúdo político e que deveriam obtê-lo. Vossa luta é o conteúdo. Tão só tenham vossa luta e está em vossas mãos assegurar o seu avanço. Tão só ela pode mudar vossa vida, a vocês e as relações reais com vossos companheiros.
Não temam atuar quando enfrentarem coisas novas. Cada um de nós, agora que nos fazemos maiores, têm algo semeado em seu cérebro. Vocês também, ainda que sejam jovens. Não esqueçam a importância deste fato. Em 1991, nos enfrentamos com o cheiro de um novo mundo e, acredite-nos, o encontramos difícil. Havíamos aprendido que sempre deve haver limites. Não temam a destruição de mercadorias. Não se assustem ante os saques de lojas. O fazemos porque é nosso. Vocês (como nós no passado) foram criados para levantarem todas as manhãs visando fazer coisas que mais tarde não serão vossas. Recuperemo-las e compartamo-las. Tal e como fazemos com nossos amigos e o amor.
Pedimos desculpas para vocês por escrever esta carta tão rapidamente, mas fazemos isso ao ritmo do trabalho, em segredo para evitar que dela se intere o chefe. Somos prisioneiros no trabalho, como vocês na escola.

Agora mentiremos aos nossos chefes e deixaremos o trabalho: reunir-nos-emos com vocês em Syntagma com pedras nas mãos.

Proletários
POESIS trabalho & cultura, 19 décembre 2008.
Texte français



A letter to students

An open letter to students by workers in Athens, against the background of the social upheaval following the police shooting of a young boy.

Our age difference and the general estrangement make it difficult for us to discuss with you in the streets; this is why we send you this letter.

Most of us have not (yet) been bald or big-bellied. We are part of the 1990-91 movement. You must have heard of it. Back then, and while we had occupied our schools for 30-35 days, fascists killed a teacher because he had gone beyond his natural role (that of being our guard) and crossed the line to the opposite side; he had come with us, into our struggle. Then, even the toughest of us got to the streets and riot. However, we didn’t even think of doing what you easily do today: attack police stations (although we sang “burn police stations…”).

So, you’re gone beyond us, as always happens in history. Conditions are different of course. During ‘90s they passed us off the prospect of personal success and some of us swallowed it. Now people cannot believe this fairy tale. Your older brothers showed us this during the 2006-07 students’ movement; you now spit their fairy tale to their faces.

So far so good.

Now the good and difficult matters begin.

We’ll tell you what we’ve learned from our struggles and our defeats (because as long as world is not ours we’ll always be the defeated ones) and you can use what we’ve learned as you wish:
Don’t stay alone. Call us; call as many people as possible. We don’t know how you can do that, you will find the way. You’ve already occupied your schools and you tell us that the most important reason is that you don’t like your schools. Nice. Since you’ve already occupied them change their role. Share your occupations with other people. Let your schools become the first buildings to house our new relations. Their most powerful weapon is dividing us. Just like you are not afraid of attacking their police stations because you are together, don’t be afraid to call us to change our life all together.
Don’t listen to any political organization (either anarchists or anyone). Do what you need to. Trust people, not abstract schemes and ideas. Trust your direct relations with people. Trust your friends; make as many people as possible in your struggle your people. Don’t listen to them when they’re saying that your struggle doesn’t have a political content and must seemingly obtain. Your struggle is the content. You only have your struggle and it’s in your hands to preserve its advance. It’s only your struggle that can change your life, namely you and the real relations with your fellowmen.
Don’t be afraid to proceed when confronting new things. Each one of us, as we’re getting older, has things planted in their brains. You too, although you are young. Don’t forget the importance of this fact. Back in 1991, we confronted the smell of the new world and, trust us, we found it difficult. We learned that there must always be limits. Don’t be scared by the destruction of commodities. Don’t be scared by people looting stores. We make all these, they are ours. You (just like we in the past) are raised to get up every morning in order to make things that they will later not be yours. Let’s get them back all together and share them. Just like we share our friends and the love among us.
We apologize for writing this letter quickly, but we do it swinging the lead from our work, secretly from our boss. We are imprisoned in work, just like you are imprisoned in school.

We’ll now lie to our boss and leave work: we’ll come to meet you in Syntagma sq with stones in our hands.

Proletarians
Libcom, December 16th, 2008.

Publié dans Grèce générale

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Mecanopolis 21/12/2008 05:28

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